Varanasi antes das seis da manhã

· Equipe Govinda

Os ghats de Varanasi ao amanhecer, sobre o Ganges

Varanasi tem duas versões, e a primeira dura pouco mais de uma hora. Entre o fim da escuridão e o sol alto, a cidade que se debruça sobre o rio funciona num regime próprio: quem desce até a água a essa hora não está passeando, está cumprindo uma rotina. Depois das sete, a outra cidade acorda por cima dessa, e a primeira desaparece até o dia seguinte.

O que é um ghat

A palavra aparece em toda descrição da cidade e raramente é explicada.

Uma escada, não um cais

Ghat é o conjunto de degraus de pedra que desce da cidade até a água. Não é píer nem plataforma: é escadaria larga, construída para que muita gente chegue ao rio ao mesmo tempo e para que o acesso continue funcionando quando o nível da água muda ao longo do ano.

Quantos são

São dezenas deles, emendados uns nos outros ao longo de vários quilômetros de margem. Do rio, a impressão é de uma única fachada contínua; de perto, cada trecho tem nome, dono histórico, templo associado e função distinta.

Nem todos servem à mesma coisa

Alguns concentram banho ritual e oferendas. Outros são de uso doméstico e cotidiano. Dois deles são ghats de cremação, funcionam ininterruptamente e seguem regras próprias, muito mais estritas — e o visitante precisa saber qual é qual antes de descer.

Em resumo: ghat é a escadaria de pedra que liga a cidade ao rio, e há dezenas delas emendadas ao longo da margem. Cada uma tem nome e função, e duas são dedicadas à cremação.

Por que só uma das margens é construída

Quem chega de barco percebe imediatamente: de um lado, a cidade inteira; do outro, uma faixa de areia vazia.

O sol nasce do lado de lá

A cidade está na margem oeste, o que significa que ela olha para o leste e recebe o nascer do sol de frente, refletido na água. Toda a experiência da manhã depende disso — a escadaria inteira é, na prática, uma arquibancada voltada para o amanhecer.

A margem vazia

A outra margem permanece praticamente sem construção. Há razões de tradição religiosa para isso, e há uma razão física igualmente concreta: aquele lado é planície de inundação, e some sob a água na estação das cheias. As duas explicações convivem, e a segunda garante a primeira.

O que isso faz com a luz

Sem edifícios do lado leste, nada bloqueia o sol baixo. A primeira luz chega rasante sobre a água e ilumina a fachada da cidade de baixo para cima, o que explica por que as fotografias da manhã parecem todas iguais e nenhuma parece com o lugar visto ao meio-dia.

Em resumo: a cidade ocupa a margem oeste e olha para o nascente, enquanto a margem leste é planície de inundação e permanece vazia. Sem obstáculo do outro lado, a primeira luz atinge a fachada inteira de frente.

O que acontece antes das seis

A sequência se repete todos os dias, e ela tem etapas reconhecíveis.

Os primeiros a descer

Antes de qualquer claridade, já há gente na escada. São moradores, em geral idosos, que fazem o percurso no escuro por hábito de décadas. Ninguém conversa muito, e o som predominante é o de pés na pedra molhada.

O rio antes da luz

Barcos a remo começam a sair enquanto ainda está escuro. O ruído do motor é exceção nesse horário; o que se ouve é o remo, e a distância acústica sobre a água é maior do que se imagina — uma conversa a cinquenta metros chega inteira.

As oferendas

Pequenas cestas com flores e uma chama acesa são postas na correnteza. Elas descem em fila, e ao longe formam uma linha de pontos de luz que se desfaz devagar. É a imagem que a maior parte das pessoas guarda da cidade.

A virada

Quando o sol aparece, tudo muda em poucos minutos: a luz endurece, o comércio da escadaria abre, os primeiros grupos chegam e o volume sobe. A cidade da madrugada não termina aos poucos — ela é substituída.

Em resumo: moradores descem antes da claridade, barcos a remo saem no escuro, oferendas com chama são postas na correnteza, e a virada acontece em poucos minutos depois do nascer do sol.

A outra hora do dia

Existe um segundo momento organizado, e ele é o oposto do primeiro.

A cerimônia da noite

Ao anoitecer, um dos ghats principais recebe uma cerimônia de fogo diante do rio, com oficiantes em plataformas, sinos, música e uma multidão que assiste de pé e de barco. É pública, acontece diariamente e tem hora marcada.

O contraste

De manhã, ninguém está apresentando nada a ninguém: a cidade faz o que faria se não houvesse visitante algum. À noite, há palco, público e roteiro. As duas coisas são verdadeiras e valem a pena, desde que não se confunda uma com a outra.

Em resumo: à noite um dos ghats principais recebe uma cerimônia de fogo com público e hora marcada. É o oposto da manhã, em que a cidade simplesmente cumpre a própria rotina.

O que não se faz ali

A lista é curta e não é negociável.

  • Não se fotografa nos ghats de cremação, em nenhuma circunstância.
  • Não se aponta câmera para quem está em banho ritual sem permissão.
  • Não se entra na água por curiosidade.
  • Não se atravessa uma cerimônia em andamento para chegar a um ponto melhor.
  • Não se pisa em oferendas deixadas na escada.

O primeiro item concentra o essencial. Ali estão famílias no dia mais difícil da vida delas, e a proibição não é preciosismo local — é a regra mais firme da cidade, e é cobrada por quem estiver por perto. Nesse trecho, o correto é passar sem parar e sem levantar a câmera.

Em resumo: não se fotografa nos ghats de cremação nem quem está em banho ritual, não se entra na água por curiosidade e não se atravessa cerimônia em andamento. A primeira regra é a mais rígida da cidade.

O que fica

  • Ghat é a escadaria de pedra que liga a cidade ao rio.
  • São dezenas delas, emendadas ao longo de vários quilômetros.
  • A cidade ocupa a margem oeste e olha para o nascente.
  • A margem leste é planície de inundação e permanece vazia.
  • Antes da claridade, quem desce são moradores, por hábito antigo.
  • Oferendas com chama descem na correnteza ao amanhecer.
  • A virada para a cidade diurna leva poucos minutos.
  • Nos ghats de cremação não se fotografa, em hipótese alguma.

O que torna essa hora difícil de explicar não é a beleza — fotografia dá conta disso. É o fato de nada ali estar sendo feito para quem olha. Você não é público, é alguém que chegou cedo e está atrapalhando o mínimo possível. Essa posição desconfortável é, provavelmente, a coisa mais valiosa que a cidade oferece.

Perguntas frequentes

Preciso mesmo acordar antes das cinco?

Se o objetivo é ver a primeira versão da cidade, sim. Depois das sete ela já foi substituída pela segunda, que é interessante por outros motivos e não se parece em nada com a primeira.

Vale mais ver do barco ou da escada?

São experiências diferentes. Do barco se vê o conjunto e a luz batendo na fachada inteira; da escada se vê o detalhe e se escuta o que está acontecendo. Fazer os dois em manhãs diferentes é o ideal.

Posso fotografar livremente?

Nos ghats comuns, com bom senso e pedindo licença quando a pessoa é o assunto da foto. Nos ghats de cremação, não — e essa é a única regra sem exceção.

Que roupa se usa para descer de manhã?

Roupa discreta, com ombros e joelhos cobertos, e calçado que saia com facilidade, porque em vários pontos se anda descalço. A pedra fica molhada e escorregadia antes do sol.

Como isso entra num roteiro em grupo?

Entra como programa de madrugada, com saída antes da claridade e retorno para o café depois. Rebeca e Mohan viajam com o grupo, a condução é em português do primeiro ao último dia, e as aulas de preparação cultural antes do embarque tratam justamente do que se pode e do que não se faz ali — o roteiro Índia Sagrada reserva mais de uma manhã para a cidade. Vale também rever o que o gesto de mãos juntas comunica, porque ele é usado o tempo todo na escadaria.