Diário de bordo · A estrada entre dois mosteiros
· Equipe Govinda
São quatro horas entre um mosteiro e o outro, e no mapa a distância é ridícula. A estrada não sobe nem desce em linha: ela contorna. Cada curva devolve a mesma paisagem de um ângulo levemente diferente, e depois de vinte minutos você para de tentar acompanhar onde está. É nesse ponto que a viagem começa de verdade — quando ninguém mais olha o relógio.
As primeiras duas horas
Saímos cedo, com o vale ainda na sombra e o topo do outro lado já iluminado. O motorista não disse quase nada nas primeiras curvas, ocupado em coisas que eu não entendia: buzinadas curtas antes de trechos cegos, uma parada de dez segundos para deixar passar um caminhão que vinha de frente, um gesto de mão para alguém no acostamento.
A buzina, aliás, foi a primeira coisa que precisei reaprender. Em casa ela significa irritação. Ali significa "estou aqui" — é comunicação, não reclamação, e a estrada inteira funciona com base nisso. Depois de uma hora eu já conseguia distinguir a buzina de curva da buzina de ultrapassagem. Não sei se aprendi ou se inventei a distinção, mas ela me acompanhou o resto da viagem.
A paisagem, nesse trecho, é feita de três coisas: rocha, terraço cultivado e água correndo em algum lugar que nem sempre se vê. Os terraços são o que mais me impressionou. Alguém, em algum século, decidiu que aquela encosta impossível daria plantação, e cortou degraus nela até dar. Continuam ali, verdes, com muros de pedra empilhada sem argamassa, e alguém continua subindo todo dia para cuidar deles.
O chá no meio do caminho
Paramos num lugar que não é bem um lugar: três construções baixas de um lado da estrada, uma cortina no vão da porta, quatro bancos. O chá veio sem que ninguém pedisse, doce e com leite, num copo de vidro pequeno e grosso, quente demais para segurar pelas laterais — segura-se pela borda, com as pontas dos dedos, e leva alguns copos até aprender isso.
Havia um cachorro dormindo exatamente na porta, do jeito que só cachorro de estrada dorme, e ninguém o incomodou nem pediu que saísse. Todo mundo passou por cima.
Foi ali que percebi uma coisa sobre viagens longas de carro: elas têm um ritmo próprio de conversa que não existe em nenhum outro lugar. Sentados naqueles bancos, três pessoas do grupo que ainda não tinham trocado dez frases entre si começaram a falar sobre coisas sérias — trabalho abandonado, decisão que não deu certo, um irmão. Ninguém programou isso. Aconteceu porque estávamos sem sinal de telefone, sem horário para cumprir e com as mãos ocupadas por um copo quente.
O que se conversa dentro de um carro
De volta à estrada, a conversa continuou, e melhorou. Descobri naquele dia que carro em movimento é o melhor lugar do mundo para uma conversa difícil, e a razão é banal: ninguém está olhando para ninguém. Todo mundo olha para a frente, ou para a janela, e essa ausência de olhos facilita tudo.
Falamos sobre o que tínhamos visto no mosteiro da manhã. Alguém tinha reparado numa coisa que eu não tinha visto — a fila de sapatos na entrada, todos virados para fora, prontos para calçar na saída. Ninguém organiza aquilo; cada pessoa que chega, tira o sapato e o vira sozinha, e o resultado é uma fileira impecável. Passei o resto da viagem reparando em fileiras de sapato.
Também falamos sobre o silêncio de lá dentro, que não é o silêncio de uma igreja vazia. Era um silêncio ocupado: havia gente, havia movimento, havia um murmúrio baixo e contínuo em algum canto, e mesmo assim o volume geral era o de um quarto à noite. Levei alguns dias para entender que aquilo não é ausência de som, é acordo sobre volume.
O passo, e as cordas
O ponto mais alto do trajeto chegou sem aviso, numa curva como todas as outras. De repente a estrada deixou de subir, o horizonte se abriu para os dois lados ao mesmo tempo e apareceu aquilo: centenas de cordas de bandeirinhas coloridas atravessando o vão de um lado ao outro, presas em postes, em pedras e umas nas outras.
Descemos do carro. O vento naquele ponto é constante e faz um barulho contínuo de tecido — não é bonito exatamente, é insistente. Havia bandeiras novas, de cor viva, penduradas por cima de outras já reduzidas a fios. Ninguém tinha retirado as velhas. Elas se acumulam ali há décadas, camada sobre camada, e o conjunto conta o tempo melhor do que qualquer placa.
Passei um tempo tentando fotografar aquilo e desisti. A fotografia pega a cor e perde o som, que era metade da coisa. Guardei a câmera e fiquei parada ouvindo, o que foi de longe a melhor decisão que tomei naquele dia.
O motorista, que tinha ficado perto do carro, apontou para um ponto do vale abaixo e disse um nome. Era o mosteiro de onde tínhamos saído de manhã. Estava logo ali, visivelmente perto, do outro lado de um vazio que a estrada tinha levado três horas para contornar. Foi a explicação mais clara que recebi sobre por que distâncias não significam nada naquela região.
O povoado, onde a estrada vira rua
Perto do fim da tarde atravessamos um povoado, e a estrada simplesmente virou a rua principal dele por uns duzentos metros. O carro passou a andar em velocidade de pedestre. Havia roupa estendida em corda atravessando a via, um bezerro amarrado num poste, duas mulheres carregando feixes de forragem nas costas — feixes maiores que elas — e um grupo de crianças de uniforme voltando da escola, todas com o mesmo suéter.
Um caminhão vinha no sentido contrário, pintado de cima a baixo, com flores, olhos e frases na traseira, e uma delas pedia que se buzinasse. Levei um tempo para entender que aquilo não era ironia: sem retrovisor útil numa estrada de curva cega, a buzina de quem vem atrás é a única informação disponível. O caminhão inteiro é um pedido de comunicação, escrito em letra grande e florida.
Ninguém no povoado olhou para o carro. Essa foi a parte que me marcou. Eu estava tão certa de que seríamos notados — o veículo, os estrangeiros, as câmeras — e não fomos. A rua continuou fazendo o que estava fazendo, e nós passamos por dentro dela como se fôssemos parte do trânsito, que era exatamente o que éramos.
A chegada, que não é o ponto
Chegamos ao segundo mosteiro no fim da tarde, com a luz baixa e amarela batendo de lado nas paredes brancas. É bonito, e as fotos ficaram boas, e não é disso que eu me lembro.
Lembro-me do copo quente segurado pela borda. Da fileira de sapatos virados. Do som das bandeiras no passo. Da conversa sobre um irmão, dita para o para-brisa e não para uma pessoa. E de ter olhado para o outro lado do vale e visto, do outro lado, o lugar onde eu tinha acordado.
Escrevo isto à noite, no quarto, e a impressão que fica é a de que o trecho entre os dois lugares foi mais importante que qualquer um deles. Não porque a paisagem fosse melhor — não era. Porque quatro horas sem nada a fazer, num carro, com estranhos que estavam deixando de ser estranhos, é uma coisa rara na vida adulta, e ninguém programa isso num roteiro. Ela simplesmente acontece quando a estrada é longa o bastante e a pressa não cabe.
Amanhã tem outro trajeto, mais curto. Estou torcendo para que seja mais longo do que o previsto.