Raízes que resistem: o Camboja por trás da memória

Dica de leitura: "Primeiro eles mataram meu pai", de Loung Ung

3 min de leitura

Angkor Wat ao entardecer, com as palmeiras e o céu aberto

Há séculos filósofos se perguntam o que sustenta a vida em comunidade. Para a filósofa francesa Simone Weil, uma das necessidades mais profundas do ser humano é a de ter raízes: o lugar, a língua, a família, a fé, a memória compartilhada. É isso que nos liga ao mundo e nos permite reconhecer quem somos na nossa comunidade.

No Camboja, o regime do Khmer Vermelho promoveu o desenraizamento sistemático da população. Entre 1975 e 1979, estima-se que cerca de 2 milhões de cambojanos tenham morrido em decorrência de execuções, fome, doenças e trabalho forçado, no que se tornou um dos maiores massacres do século XX.

As raízes de uma árvore gigante sobre as pedras do templo de Ta Prohm
Ta Prohm · as raízes sobre o templo

A dica de leitura desta edição é First They Killed My Father (Primeiro eles mataram meu pai), de Loung Ung.

Capa do livro Primeiro mataram meu pai, de Loung Ung

É um relato autobiográfico e histórico sobre o genocídio, contado pelos olhos de uma menina chamada Loung. O livro se inicia em Phnom Penh, no cotidiano de uma família urbana de condição confortável, e é justamente esse ponto de partida que dá dimensão ao que vem depois.

Com a chegada do Khmer Rouge, a família integra o êxodo forçado que esvaziou a capital e passa a ocultar sua origem e sua posição social, já que a instrução e a ligação com o antigo governo tornavam as pessoas alvo de perseguição. A partir daí, a obra documenta os efeitos do regime sobre o núcleo familiar: a fome, o trabalho forçado nas áreas rurais, a necessidade de falsear o passado como estratégia de sobrevivência e o estado permanente de medo. A família se fragmenta na tentativa de aumentar suas chances de sobreviver.

Soldados e uma multidão numa rua de Phnom Penh, em 1975

A força do relato decorre de sua perspectiva: a de uma criança que não dispõe de categorias políticas para compreender o colapso de seu mundo, mas que registra com precisão o que vê e vive. É por esse olhar que o desenraizamento, descrito há pouco em termos históricos, ganha rosto e passa a ser sentido. Conhecer a história do Camboja é perceber que as raízes de uma sociedade não são um dado natural, mas uma construção contínua, que depende de memória, de instituições e de cuidado coletivo.

As torres de pedra com rostos do templo de Bayon, em Angkor
Bayon · Angkor

Viajar por um país que viveu essa ruptura, e que hoje reconstrói sua cultura, suas escolas e seus templos, é uma oportunidade de compreender o que significa, de fato, enraizar-se. E talvez de olhar com outros olhos para este país, para o seu povo e para tudo o que ele escolheu preservar.

NOTA: Quem preferir começar pelas imagens pode assistir ao filme de 2017, dirigido por Angelina Jolie e disponível na Netflix. Foi rodado no Camboja, falado em khmer e conduzido com a mesma perspectiva do livro. Um completa o outro.

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