As mulheres que encontram seu sustento no fundo do mar

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Uma haenyeo, mergulhadora de Jeju, no fundo do mar, com a luz do sol entrando pela água
Jeju · uma haenyeo no fundo do mar

Na ilha de Jeju, ao sul da Coreia do Sul, existe uma tradição que atravessa gerações. Mulheres que mergulham nas profundezas do oceano sem cilindros de oxigênio, recolhendo frutos do mar e retornando à superfície com o que o mar lhes oferece.

São as haenyeo, as mulheres do mar.

Durante séculos, elas mergulharam nas águas frias da ilha para pescar e coletar alimentos diretamente do fundo do oceano. Prendendo a respiração, descem a vários metros de profundidade para recolher abalones, ouriços-do-mar, polvos, mexilhões e outros moluscos entre as rochas. Com roupas de mergulho, máscaras e ferramentas simples, realizam um trabalho que exige resistência física, técnica e um profundo conhecimento das águas.

Mas a história das haenyeo vai muito além da pesca.

Em uma sociedade tradicionalmente marcada por estruturas patriarcais, essas mulheres conquistaram um papel econômico e social de grande importância. Seu trabalho no mar sustentou famílias e comunidades inteiras, tornando-se parte fundamental da identidade cultural da ilha de Jeju.

O que parece, à primeira vista, uma atividade de sobrevivência tornou-se também uma expressão de autonomia, identidade e força feminina.

Há algo particularmente fascinante na maneira como essas mulheres trabalham. Elas conhecem os ciclos do oceano, respeitam os períodos de reprodução das espécies e sabem que não podem retirar do mar mais do que ele é capaz de oferecer.

Seu trabalho exige coragem, mas também disciplina e limite. Mergulhar significa conhecer o próprio corpo, reconhecer os riscos e saber a hora de voltar à superfície.

É um conhecimento que não se aprende apenas nos livros. Aprende-se com o tempo, com a observação e com as mulheres que vieram antes.

Uma tradição que o tempo não apagou

Hoje, muitas haenyeo são idosas. A tradição enfrenta o desafio do envelhecimento das comunidades e da diminuição do número de novas mergulhadoras. Ainda assim, elas continuam representando uma parte fundamental da identidade cultural da ilha de Jeju.

Em 2016, a tradição das haenyeo foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, valorizando não apenas a técnica do mergulho, mas também os conhecimentos, os costumes e os laços comunitários que sustentam esse modo de vida.

O reconhecimento internacional trouxe visibilidade a mulheres que, por muito tempo, trabalharam longe dos grandes centros e das narrativas mais conhecidas sobre a história coreana.

E talvez seja justamente isso que torna essa história tão especial: ela nos convida a olhar para além dos monumentos, das grandes cidades e da tecnologia que costuma definir a imagem da Coreia do Sul.

Porque um país também se revela nas histórias de quem mantém vivas suas tradições.

Conhecer a Coreia é também descobrir o que não aparece nos cartões-postais

Quando viajamos pela Ásia, encontramos muito mais do que paisagens e lugares históricos. Encontramos diferentes maneiras de compreender o trabalho, a família, a comunidade e a relação entre o ser humano e a natureza.

A história das haenyeo nos lembra que existem formas de conhecimento que não dependem de máquinas, que a força nem sempre se manifesta da maneira que imaginamos e que certas tradições guardam lições importantes para o mundo contemporâneo.

É esse olhar que buscamos levar às nossas viagens: o de quem deseja compreender os lugares, ouvir suas histórias e conhecer as pessoas que lhes dão significado.

Porque viajar não é apenas chegar a um destino. É descobrir aquilo que não sabíamos que precisávamos conhecer.

Venha conhecer a Coreia do Sul com a Govinda.

Para continuar essa viagem

Se a história das haenyeo despertou sua curiosidade, fica a nossa indicação de leitura: As Herdeiras do Mar, de Mary Lynn Bracht, um romance inspirado na história das mulheres mergulhadoras da ilha de Jeju e nos acontecimentos que marcaram a Coreia durante a ocupação japonesa.

Capa do livro As Herdeiras do Mar, de Mary Lynn Bracht

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