Diário de bordo · Chiang Mai na véspera
· Equipe Govinda
Cheguei um dia antes, e por isso vi a parte que quase ninguém fotografa. Chiang Mai na véspera não está bonita: está trabalhando. A cidade inteira dobra papel, corta folha de bananeira e amarra flor, em calçada, em quintal e em pátio de templo — e faz isso num silêncio concentrado que não combina em nada com o que vai acontecer amanhã.
O mercado, na manhã anterior
Fui cedo ao mercado sem saber direito o que procurava, e encontrei um setor inteiro que não existia na semana passada. Toras de tronco de bananeira empilhadas como lenha, cortadas em fatias grossas. Montes de folha verde, lavada, cortada em tiras longas. Cravos-de-defunto alaranjados em sacos abertos, aos quilos. Velas finas, incenso, e alfinetes de bambu numa caixa de sapato.
Uma senhora montava uma peça na frente da barraca, com uma velocidade que eu não conseguia acompanhar. Ela dobrava a folha em triângulos idênticos, prendia cada um com o alfinete de bambu contra a fatia de tronco, e girava a peça um pouco a cada volta. Levava talvez dois minutos. Havia uma pilha delas atrás, todas iguais.
Perguntei por gestos se podia experimentar. Ela me entregou uma folha e um alfinete, e o que saiu da minha mão foi uma coisa torta que ela ajeitou sem dizer nada, ainda rindo, e devolveu para eu continuar. Fiz três dobras e desisti. Ela terminou a peça em vinte segundos e a colocou na pilha, junto das outras — sem separar a minha, o que eu achei generoso.
A mesa da calçada
Na volta, passei por uma casa em que quatro pessoas trabalhavam numa mesa de plástico posta na calçada. Não era comércio: era família. Havia uma pilha de papel fino, quase transparente, e um molde de arame.
O trabalho era colar as folhas de papel umas nas outras formando um cilindro alto, depois fechar o topo e prender o aro na base. O papel amassa se você respirar perto. Eles manejavam aquilo com a ponta dos dedos, sem pressa e sem falar muito, e a pilha de peças prontas ia crescendo encostada no muro.
O que me chamou atenção foi a idade das mãos. Havia uma criança de uns oito anos fazendo a parte da cola, uma mulher de meia-idade montando, e uma senhora que parecia não estar fazendo nada e que, de vez em quando, corrigia alguma coisa com um toque. Ninguém explicava nada a ninguém. Aquilo era claramente a milésima vez.
Fiquei uns quinze minutos ali parada, o que provavelmente foi tempo demais, e ninguém me mandou embora nem tentou me vender coisa alguma. A criança me olhou duas vezes. Na segunda, sorriu.
O templo, que estava trabalhando
À tarde entrei num templo esperando encontrar preparação cerimonial, e encontrei mutirão. Havia gente varrendo o pátio, gente pendurando lâmpadas numa fiação improvisada, gente organizando cadeiras de plástico em fileiras tortas que outra pessoa vinha atrás endireitar.
Num canto, sob uma árvore, três monges jovens dobravam papel exatamente como a família da calçada. A mesma peça, o mesmo movimento, a mesma pilha crescendo ao lado. Não havia nada de solene naquilo. Um deles estava com o telefone apoiado no joelho, tocando alguma coisa baixinho.
Foi a cena que mais me tirou do lugar comum que eu tinha trazido de casa. Eu esperava encontrar preparação espiritual e encontrei preparação logística — e demorei mais um dia para entender que, ali, uma coisa não é o contrário da outra. Varrer o pátio faz parte. Endireitar cadeira faz parte.
O silêncio da véspera
À noite, a cidade estava estranhamente quieta. Não vazia: quieta. As ruas do centro tinham movimento normal, restaurantes abertos, gente andando. Mas faltava o barulho de expectativa que eu associo a véspera de festa — nada de música alta, nada de ensaio, nada de fogos soltos por antecipação.
Andei até a ponte e fiquei olhando o rio, que estava escuro e sem nada boiando nele. Havia duas ou três pessoas fazendo o mesmo, cada uma num ponto da grade, sem falar. Um homem passou empurrando um carrinho com peças prontas empilhadas em torres altas, cobertas por um plástico, e o carrinho fazia mais barulho que a cidade inteira.
Voltei pensando numa coisa que agora me parece óbvia: uma festa que acontece numa noite só exige que tudo esteja pronto na véspera. O silêncio não era calmaria. Era prazo.
A loja que vende pronto
Perto do hotel há uma loja que vende as peças prontas, empilhadas em prateleiras, com etiqueta e embalagem plástica. Entrei por curiosidade. São bem-feitas, uniformes, todas do mesmo tamanho, e algumas trazem cores que eu não vi em lugar nenhum durante o dia — um roxo, um rosa forte. O rapaz do balcão falava inglês e explicou com paciência a diferença entre os modelos.
Saí de lá com uma sensação estranha que levei um tempo para nomear. Não era desprezo pela loja: quem chega no dia da festa e quer participar precisa comprar em algum lugar, e é perfeitamente razoável que exista quem venda. Era outra coisa — a percepção de que eu tinha passado a manhã inteira olhando pessoas fazerem à mão, de graça, para uso próprio, uma coisa que ali estava exposta como produto.
As duas coisas convivem na mesma rua sem nenhum conflito aparente. A senhora do mercado vende as dela também; a família da calçada, pelo que entendi, não vende nenhuma. E o rapaz da loja, provavelmente, passou a tarde de ontem dobrando papel com a avó dele em algum quintal que eu não vi.
Fico com a impressão de que a distinção que eu estava tentando fazer — autêntico de um lado, turístico do outro — é uma preocupação minha, e não uma questão daqui. Ninguém no mercado parecia achar que uma coisa estragava a outra.
O que eu não sabia que ia reparar
Escrevo isto no quarto, com a janela aberta, e o que anotei no caderno hoje não tem quase nada a ver com o que eu vim ver.
Anotei o cheiro do mercado, que é uma mistura de folha cortada, flor e alguma coisa doce que eu não identifiquei. Anotei que o alfinete de bambu é mais fino do que parece nas fotos e que ele entra na folha com um estalo mínimo. Anotei que a fatia de tronco de bananeira é úmida e pesada, e que a peça pronta tem um peso que eu não esperava — ela é feita para afundar um pouco e não tombar.
Anotei também uma frase que ouvi mal e provavelmente entendi errado, dita por um rapaz na barraca ao lado, sobre a peça precisar ser bonita por baixo também. Não sei se ele estava falando do acabamento ou de outra coisa. Vou perguntar amanhã, se conseguir encontrá-lo, o que é improvável.
Amanhã, aparentemente, a cidade inteira sai de casa ao mesmo tempo e tudo o que foi dobrado hoje vai para o rio ou para o céu. Estou curiosa com isso, claro. Mas se eu tivesse chegado no dia certo, teria visto o resultado e perdido a parte em que quatro pessoas de três gerações montam alguma coisa juntas numa mesa de plástico, sem trocar dez palavras, porque todo mundo já sabe o que fazer.
É a segunda vez que percebo isso nesta viagem: o dia anterior costuma explicar melhor do que o dia.