Ayutthaya: a capital que o rio protegeu por quatro séculos

· Equipe Govinda

As ruínas de Ayutthaya, antiga capital do reino

Ayutthaya foi capital do reino que hoje é a Tailândia de 1351 a 1767 — mais de quatro séculos — e a razão da escolha do sítio está na água. A cidade foi implantada numa língua de terra entre três rios, e um canal escavado completou o anel, transformando-a numa ilha. Essa decisão inicial explica a longevidade da capital, a riqueza que ela acumulou e, no fim, a forma como caiu.

A ilha, e por que ela foi escolhida

O sítio não foi encontrado: foi construído.

Três rios e um canal

A confluência de três cursos d água cercava o terreno por três lados. A escavação de um canal ligando as pontas fechou o circuito, produzindo uma ilha artificial defendida por água em todo o perímetro.

O que a água resolvia

Defesa, em primeiro lugar: um exército atacante precisava atravessar antes de sitiar. Mas também transporte, abastecimento e drenagem — a cidade era percorrida por canais internos e o deslocamento cotidiano se fazia por barco, não por rua.

A estação como aliada

Havia ainda um efeito sazonal decisivo. Na estação das cheias, a planície em volta alagava e a aproximação por terra ficava impraticável durante meses. A cidade era, por vários períodos do ano, inatacável — e os atacantes sabiam disso.

Em resumo: a cidade foi implantada entre três rios, e um canal escavado fechou o anel de água. A ilha resultante servia à defesa, ao transporte e à drenagem, e a cheia sazonal tornava a aproximação por terra impraticável durante meses.

A cidade internacional

A posição fluvial, ligada ao mar, produziu algo que surpreende quem visita as ruínas hoje.

Um porto de longo alcance

Ayutthaya era acessível a embarcações que subiam o rio a partir do golfo, e virou entreposto de comércio entre a China, a Índia, o arquipélago malaio e, a partir do século XVI, a Europa.

Bairros estrangeiros

Comunidades inteiras se estabeleceram fora das muralhas, cada uma em seu setor: portugueses — os primeiros europeus a chegar —, japoneses, chineses, holandeses, franceses e persas, entre outros. Havia igrejas, entrepostos e cemitérios próprios, e alguns desses sítios são visitáveis.

O tamanho

No século XVII, relatos de viajantes europeus a descrevem como uma das maiores e mais impressionantes cidades que haviam visto, comparando-a favoravelmente às capitais que conheciam. As estimativas de população variam bastante entre autores, e todas apontam para uma escala excepcional para a época.

Em resumo: acessível a embarcações vindas do golfo, a cidade tornou-se entreposto entre a China, a Índia e a Europa, com bairros estrangeiros próprios. Relatos do século XVII a descrevem como uma das maiores que os viajantes conheciam.

1767

O fim foi abrupto e vale ser contado sem eufemismo.

O cerco

Depois de um longo período de conflitos com o reino vizinho a oeste, um cerco prolongado terminou com a tomada da cidade em 1767. Ela foi incendiada, saqueada e sistematicamente destruída.

O que foi feito com as imagens

Estátuas foram decapitadas e o revestimento de metal precioso das figuras e dos monumentos foi arrancado. As inúmeras imagens sem cabeça que se veem hoje alinhadas nos terraços não são efeito da passagem do tempo: são o registro direto daquele episódio.

A capital que não voltou

A corte não reconstruiu a cidade. Instalou-se rio abaixo, e alguns anos depois na margem oposta, onde nasceria a capital atual. Ayutthaya nunca mais foi sede de governo, o que preservou as ruínas de serem soterradas por uma cidade moderna.

Em resumo: a cidade foi tomada, incendiada e saqueada em 1767, com estátuas decapitadas e revestimentos metálicos arrancados. A capital foi transferida rio abaixo e o sítio nunca voltou a ser sede de governo.

O que sobrou, e como se lê

As ruínas são extensas e a visita rende muito mais com algumas chaves de leitura.

Duas gramáticas de torre

Há dois tipos de estrutura vertical no sítio, e distingui-los organiza tudo. Uma é em forma de sino sobre base escalonada, terminando em agulha; a outra é uma torre de perfil de espiga de milho, de influência khmer, herdada do império vizinho que antecedeu o reino na região.

O tijolo aparente

Quase tudo o que se vê hoje é tijolo cru, mas não era assim: as superfícies eram revestidas de argamassa branca e, nas partes principais, de folha metálica. O que restou é a estrutura, não o acabamento.

Os terraços de imagens

Fileiras de figuras sentadas contornam vários conjuntos. Contar quantas conservam a cabeça é, involuntariamente, uma forma de medir o que aconteceu em 1767.

O que reconhecer nas posturas

As posições das mãos seguem o vocabulário fixo da tradição local, e reconhecê-las torna a visita bem mais interessante — o assunto está em a diferença que se vê na estátua.

Em resumo: há dois tipos de torre no sítio, um em forma de sino e outro de influência khmer, e o tijolo aparente já foi revestido de argamassa e folha metálica. As fileiras de imagens registram a destruição de 1767.

A regra diante da cabeça entre as raízes

Uma imagem específica virou o cartão-postal do lugar, e ela tem etiqueta própria.

O que é

Uma cabeça de pedra, desprendida do corpo, envolvida pelas raízes de uma figueira que cresceu em torno dela ao longo de décadas. Ninguém a colocou ali: a árvore a incorporou.

A regra

Há sinalização explícita e funcionários orientando: ao fotografar, é preciso agachar-se, de modo que a sua cabeça fique abaixo da cabeça da imagem. Fotografar de pé, ou pior, posar acima dela, é ofensa séria.

Por quê

Pela mesma hierarquia vertical do corpo que organiza tanta coisa na região — a mesma que explica por que o calçado fica na porta. Colocar a própria cabeça acima de uma imagem sagrada inverte a ordem, e a inversão é o problema.

Em resumo: a cabeça de pedra envolvida por raízes exige que o visitante se agache para fotografar, mantendo a própria cabeça abaixo dela. A regra deriva da hierarquia vertical do corpo, e é cobrada no local.

O que fica

  • A cidade foi capital de 1351 a 1767, mais de quatro séculos.
  • Três rios e um canal escavado formaram uma ilha artificial.
  • A cheia sazonal tornava a aproximação por terra impraticável.
  • O porto fluvial fez dela entreposto entre a China, a Índia e a Europa.
  • Havia bairros estrangeiros próprios fora das muralhas.
  • Foi tomada, incendiada e saqueada em 1767.
  • As imagens sem cabeça são registro direto daquele episódio.
  • Diante da cabeça entre raízes, agacha-se para fotografar.

Há uma ironia inscrita na geografia do lugar. A água que protegeu a cidade por quatro séculos é a mesma que a inunda periodicamente até hoje, danificando as ruínas que restaram. O sítio continua sendo governado pela decisão tomada no século XIV — só que agora sem ninguém para se beneficiar dela.

Perguntas frequentes

Dá para visitar num dia?

Dá, e é o mais comum, saindo da capital atual pela manhã. O sítio é extenso e disperso, e um dia permite ver os conjuntos principais sem correria se o percurso for planejado.

Qual o melhor horário?

Começo da manhã e fim da tarde, tanto pela luz rasante sobre o tijolo quanto pelo calor. O meio do dia num sítio aberto e sem sombra é a parte mais dura da visita.

Por que tantas estátuas estão sem cabeça?

Porque foram decapitadas durante o saque de 1767, e o revestimento metálico das imagens foi arrancado no mesmo episódio. Não é degradação natural.

Preciso cobrir ombros e joelhos?

Sim, é a orientação para o sítio, que continua sendo espaço religioso em vários pontos, com monges e fiéis presentes. O calçado também sai onde houver indicação.

Como isso entra num roteiro?

Entra como contraponto histórico ao que se vê na capital atual, e ajuda a entender por que a Tailândia tem a trajetória que tem — assunto tratado em o único país do Sudeste que não foi colonizado. O roteiro Belezas do Sudeste Asiático inclui o sítio, com Rebeca e Mohan viajando com o grupo e condução em português do primeiro ao último dia.